Astrônomos acham sistema com dois planetas na zona
habitável
SALVADOR NOGUEIRA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Atualizado
às 18h28.
Quem pensa que o Sistema Solar é
interessante por ter um planeta habitável vai pirar com o que há ao redor da
estrela Kepler-62. Lá, nada menos que dois mundos --possivelmente rochosos--
ocupam órbitas na região mais favorável ao surgimento da vida.
É a conclusão eletrizante a que chega
um estudo produzido pela equipe do satélite Kepler, caçador de planetas da
Nasa, e recém-publicado na revista científica americana "Science".
Os pesquisadores liderados por William
Borucki identificaram um total de cinco planetas girando ao redor da estrela,
uma anã laranja com 63% do diâmetro do Sol.
Todos eles são relativamente nanicos
--quatro entram na categoria das superterras (com diâmetro até duas vezes o
terrestre) e um é do tamanho de Marte, ou seja, menor que a Terra.
Os três mais internos são quentes
demais para abrigar vida. Já os dois mais externos, Kepler-62e e Kepler-62f,
têm suas órbitas na chamada zona habitável do sistema --região em que, numa
atmosfera similar à da Terra, um planeta pode abrigar água líquida em sua
superfície.
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NASA/Ames/JPL-Caltech
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Concepção artística do planeta Kepler 62f, o menor em zona habitável
já achado fora do Sistema Solar
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APARÊNCIAS ENGANAM
A questão é: esses planetas são
parecidos com a Terra? Constatar isso é um dos maiores desafios da astronomia,
uma vez que as superterras não têm equivalente no Sistema Solar.
Por aqui, há, nas órbitas mais distantes, planetas gigantes gasosos (Júpiter,
Saturno, Urano, Netuno), e nas mais próximas do Sol os pequeninos mundos
rochosos (Mercúrio, Vênus, Terra e Marte), dos quais o nosso planeta é o maior
deles.
As superterras, em termos de tamanho,
estão no meio do caminho entre essas duas categorias. Mas ninguém sabe com
certeza se elas são rochosos grandalhões ou gasosos murchos.
E isso tende a fazer toda a diferença
do mundo para a busca por vida.
Uma forma de resolver a questão é
determinar, ao mesmo tempo, o diâmetro do planeta e sua massa. Assim, dividindo
a massa pelo volume, obtemos a densidade. Com ela, dá para saber se o planeta é
rochoso ou gasoso.
A técnica usada pelo satélite Kepler
para detectar planetas (medir pequenas reduções de brilho nas estrelas conforme
os mundos ao seu redor passam à frente dela, como minieclipses) é boa para
medir o diâmetro.
Contudo, para estimar a massa com
segurança, a melhor técnica é a usada pelos observatórios em terra, que mede o
"bamboleio" gravitacional da estrela conforme os planetas giram ao
seu redor.
Infelizmente, no caso do Kepler-62, os
planetas são pequenos demais e a estrela é muito ativa para permitir o uso
dessa estratégia para confirmar a massa desses mundos com o nível de precisão
dos instrumentos atuais.
CASOS SIMILARES
Embora a composição desses mundos ainda
seja desconhecida, os pesquisadores citam outros planetas com diâmetro similar
que tiveram sua densidade medida (três casos no total) para argumentar que
Kepler-62e e Kepler-62f provavelmente sejam rochosos como a Terra.
Uma modelagem em computador feita por
um outro grupo liderado por Lisa Kaltenegger, do Centro Harvard-Smithsonian
para Astrofísica, nos EUA, sugere que os dois planetas devem ter oceanos
globais cobrindo totalmente sua superfície --planetas-água, por assim dizer.
Mas isso pressupõe que os cientistas acertaram as quantidades dos ingredientes
usados para formar os planetas, o que não é de modo algum certo.
Pelo menos, esses dois mundos não têm
um problema que outros planetas detectados na zona habitável de suas estrelas
possuem: o "travamento gravitacional".
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Reuters
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Concepção artística compara o tamanho dos exoplanetas, Kepler-22b,
Kepler-69c, Kepler-62e, Kepler 62f, respectivamente, com a Terra. A
descoberta dos dois últimos foi anunciada nesta quinta.
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Esse fenômeno acontece quando a mesma
face do planeta fica o tempo todo voltada para a estrela. Mais comumente
observado no sistema Terra-Lua, em que o satélite exibe sempre a mesma face
para o planeta, casos como esse se apresentam naqueles mundos que orbitam muito
próximos do astro principal. Mas não é o caso aqui.
"Exceto pelo planeta mais interno
--Kepler-62b--, todos os planetas têm períodos orbitais tão grandes que é
extremamente improvável que eles estejam travados", disse à Folha Borucki,
antes de apresentar os resultados em uma entrevista coletiva organizada pela
Nasa nesta quinta.
Em suma, esses dois mundos sobem direto
para o topo da lista de potenciais planetas com vida, embora rigorosamente nada
se possa dizer a esse respeito, exceto que, em teoria, eles podem abrigar água
líquida na superfície.
Por isso, apesar do entusiasmo, os
cientistas são muito cautelosos no parágrafo final de seu artigo científico:
"Não sabemos se Kepler-62e e -62f têm uma composição rochosa, uma
atmosfera ou água. Até que consigamos detectar espectros adequados de suas
atmosferas não poderemos determinar se eles são de fato habitáveis."
Ainda assim, é impossível não se
empolgar com a possibilidade.